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Josué de Castro e o Brasil
Josué de Castro em dois textos inéditos no Brasil
Livro da Perseu Abramo analisa o autor de “Geografia da Fome” e
apresenta seu projeto contra a miséria, elaborado em 63
“Nunca se falou tanto sobre a fome no mundo. É um assunto que está na ordem do dia...”, assim o médico Josué de Castro inicia “O Projeto Tracunhaém”, seu programa-piloto de combate à fome para o Brasil. A data é 1963, e o original nunca tinha sido publicado no país, o que acontece agora, neste lançamento da Editora Fundação Perseu Abramo. Josué de Castro, autor de “Geografia da Fome”, foi um dos maiores estudiosos brasileiros sobre as questões da fome. Em 2001, a Fundação Perseu Abramo e o Centro Josué de Castro realizaram em Recife, Pernambuco, um seminário sobre sua obra. O resultado é “Josué de Castro e o Brasil”, título que será lançado agora, na Bienal Internacional do Livro, no Rio de Janeiro.
O livro conta com dois textos inéditos de Josué de Castro, o do projeto Tracunhaém e um discurso dos anos 50, em que o autor mostra o paralelo perverso entre a miséria e a corrida armamentista. A socióloga e professora da UFRJ Anna Maria de Castro, filha de Josué de Castro, que selecionou os textos inéditos para o livro, destaca: “A preocupação com o tema Fome e Paz sempre permeou seu pensamento até o fim de seus dias (em 1973, ele morreu ainda no exílio, na França). Talvez tenha sido esta preocupação, bem como os trabalhos sobre o assunto, que tenham motivado sua indicação, duas vezes, para o Prêmio Nobel da Paz, em 53 e 63”. “Josué de Castro e o Brasil” apresenta ainda uma entrevista com o médico pernambucano.
Diversos intelectuais brasileiros são autores deste livro. Dois deles, à época do seminário, ainda não tinham se tornado nomes importantes do governo federal: Humberto Costa, médico e ministro da Saúde, e José Graziano da Silva, ministro da Segurança Alimentar. Também são autores do livro: Manuel Correia de Andrade, um dos maiores estudiosos sobre o Nordeste, Walter Belik, Maya Takagi, Malaquias Batista Filho, Luciano Vidal Batista, Djalma Agripino de Melo Filho, José Arlindo Soares, Paulo Santana, Renato Duarte e Michel Zaidan Filho.
A seguir, um pequeno trecho do livro:
“No mangue, tudo é, foi ou será caranguejo, inclusive o homem e a lama. Não foi na Sorbbone, nem em qualquer universidade sábia que travei conhecimento com o fenômeno da fome. A fome se revelou espantosamente aos meus olhos nos mangues do Capiberibe, nos bairros miseráveis de Recife (...), a lama dos mangues de Recife, fervilhando de caranguejos e povoada de seres humanos feitos de carne de caranguejo. São seres anfíbios – habitantes da terra e da água, meio homens e meio bichos. Alimentados na infância com caldo de caranguejo _ este leite de lama_, se faziam irmãos de leite dos caranguejos. Cedo me dei conta desse estranho mimetismo: os homens se assemelhando em tudo aos caranguejos. Arrastando-se, acachapando-se como caranguejos para poderem sobreviver. (...) E quando cresci e saí pelo mundo afora, vendo outras paisagens, me apercebi com nova surpresa que o que eu pensava ser um fenômeno local, um drama do meu bairro, era drama universal. Aquela lama humana do Recife, que eu conheci na infância, continua sujando até hoje toda a paisagem do nosso planeta como negros borrões de miséria: as negras manchas demográficas da geografia da fome.”
Josué de Castro, 1966, em “A descoberta da Fome”, prefácio para a edição portuguesa de “Homens e Caranguejos”.
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