Autores: Paul Singer, Antonio Lassance, Marilia Pontes Sposito, Nadya Araujo Guimarães, Ana Karina Brenner, Juarez Dayrell e Paulo Carrano, Helena Wendel Abramo, Pedro Paulo Martoni Branco, Gabriela Calazans, Maria José Carneiro, Regina Novaes, Gevanilda Santos, Maria José P. Santos e Rosangela Borges, Beatriz Carlinni-Marlat, Paulo J. Krischke, Gustavo Venturi e Vilma Bokany
Nesta coletânea, especialistas de diversas áreas analisam a pesquisa nacional sobre juventude realizada pela Fundação Perseu Abramo. Os autores abordam como os jovens brasileiros encaram vários aspectos de suas vidas, que vão desde trabalho e sexualidade até drogas e escola. O livro traz também uma síntese da pesquisa, proporcionando ao leitor um quadro detalhado de quem é e como pensa a juventude brasileira hoje.
1ª reimpressão.
Retratos da Juventude Brasileira
Apresentação
Helena Wendel Abramo
Pedro Paulo Martoni Branco
Este livro dá continuidade às revelações trazidas à luz pelo Projeto Juventude, um amplo e diversificado conjunto de produtos nascidos das múltiplas atividades empreendidas desde meados de 2003.
No primeiro livro, lançado em agosto de 2003, sob o título Juventude e sociedade – Trabalho, educação, cultura e participação, foram abordados por especialistas e pesquisadores variados temas reputados como obrigatórios para que se pudesse avançar na compreensão da complexa realidade que envolve os 34 milhões de brasileiros entre 15 e 24 anos.
Por sua vez, o objetivo desta publicação é divulgar e estimular o uso ainda mais intenso dos resultados da pesquisa “Perfil da juventude brasileira” – um amplo levantamento quantitativo sobre esse contingente populacional, cujo planejamento atendeu ao propósito de que o estudo tivesse representatividade estatística nacional e permitisse que a abordagem se desdobrasse na apresentação de resultados desagregados segundo as características regionais e outros aspectos fundamentais para a melhor compreensão do que é a juventude brasileira, respeitando a diversidade de temas e as características sociodemográficas e culturais que qualificam a juventude do país.
Realizar estudos e desenhar propostas, oferecendo-as como subsídios para a atuação dos governantes e das organizações da sociedade, além de trazê-las ao domínio público para que possam ser tomadas como referência para o debate das soluções que precisam ser encontradas para a superação dos grandes desafios que se colocam para o desenvolvimento da cidadania brasileira com mais justiça, eqüidade e inclusão, tem sido, ao longo de mais de 12 anos, o principal objetivo do Instituto Cidadania.
O Brasil chegou ao terceiro milênio carregando uma enorme dívida social. Nosso país ainda não se revelou capaz de satisfazer necessidades básicas de milhões de cidadãos. Alimentação, saúde, moradia, educação, segurança e trabalho estão entre os bens existenciais fundamentais que são sonegados ou negados a imensos contingentes de excluídos.
Construir propostas viáveis e consistentes para superar essas carências tornou-se a vocação do Instituto Cidadania desde 1991, quando Luiz Inácio Lula da Silva apresentou à nação o documento Política Nacional de Segurança Alimentar, que inspirou a campanha de combate à fome liderada por Betinho. Nos 12 anos seguintes, o Instituto Cidadania deu continuidade a esse trabalho, elaborando seus projetos em ambiente suprapartidário. Incorporou nas discussões a contribuição pluralista de sindicatos, movimentos populares, organizações não-governamentais (ONGs), empresários, entidades da sociedade civil, intelectuais, especialistas, administradores públicos e parlamentares.
Inúmeras propostas de políticas públicas foram produzidas e oferecidas às autoridades dos três níveis federados, dos três poderes e de diferentes partidos. Em cada ato de lançamento, elas foram declaradas de domínio público, para serem utilizadas por todos quantos estejam interessados em construir um Brasil mais justo. Dessa forma e sob esse signo, o Projeto Moradia, o Projeto Segurança Pública, o Projeto Reforma Política e o Projeto Fome Zero, entre outros, atingiram os objetivos propostos. Alguns deles converteram-se em programas concretos de governo a partir de janeiro de 2003. Outros serviram como fonte reconhecida de análises e diagnósticos.
Ao se afastar da coordenação do Instituto para assumir a Presidência da República, Lula participou das discussões que concluíram pela escolha do tema juventude como foco prioritário do trabalho em 2003 e 2004.
Voltado para os jovens brasileiros e contando com sua participação nas distintas etapas do cronograma, o Projeto Juventude buscou propiciar mudanças e avanços na maneira de os poderes públicos compreenderem as demandas da juventude brasileira nas múltiplas dimensões envolvidas: trabalho, educação, saúde, cultura, lazer, esportes, vida artística, sexualidade, direitos, participação, segurança e várias outras.
Esse programa consistiu em reunir contribuições já existentes em âmbito nacional e internacional, explicitar pontos de controvérsia, incentivar o debate e avançar na produção de conhecimento sobre as condições e as perspectivas da juventude brasileira. Sempre com o objetivo de contribuir para o aperfeiçoamento e a ampliação das políticas públicas focadas no jovem, as atividades do Projeto Juventude envolveram múltiplos agentes e incentivaram o diálogo entre pontos de vista divergentes, reunindo informações e disponibilizando bibliografia e documentação. Produziram ou realçaram novos diagnósticos e interpretações por meio de estudos, debates e consultas.
Durante pouco mais de um ano, o Projeto Juventude reuniu análises e dados provenientes de distintos instrumentos acoplados. Promoveu a mais abrangente pesquisa quantitativa nacional já realizada no Brasil sobre o tema – que inspira esta publicação. Colheu diversificado acervo de narrativas pessoais sobre a participação juvenil em todas as unidades da Federação. Esse trabalho de investigação ainda resultará na publicação de mais um livro, além do já publicado em agosto de 2003 e deste agora revelado ao leitor.
O Projeto Juventude organizou também um seminário internacional, em parceria com o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), com a presença de especialistas de 17 países, além de 200 brasileiros de vários estados. Realizou seminários em 11 unidades da Federação, em parceria com ONGs e poderes públicos locais, e 20 oficinas temáticas e eventos de consultas a entidades, movimentos sociais e estudiosos.
Por meio do site www.projetojuventude.org.br, propiciou a realização de enquetes e debates e a divulgação de informações e documentos importantes sobre a questão, facilitando a interação entre jovens, instituições e movimentos de centenas de cidades brasileiras e de outros países.
Encerrando seu programa de trabalho em junho de 2004, o Projeto Juventude ofereceu aos poderes públicos dos três níveis, bem como às entidades e forças dinâmicas da sociedade civil brasileira, um conjunto integrado e consistente de subsídios, dados, análises, informações, sugestões e propostas que contemplam necessidades e anseios de nossa juventude, considerada em sua ampla diversidade e em suas fortes desigualdades sociais.
* * *
Entre os consensos que vêm sendo construídos no atual processo de debates sobre a necessidade de políticas de juventude, um deles é especialmente oportuno: o de que os jovens têm de ser considerados como sujeitos de direitos. Porém, levar em consideração os sujeitos a quem se destinam as políticas implica, necessariamente, procurar conhecer suas realidades, questões, práticas, opiniões e demandas. Com este objetivo foi realizada a pesquisa “Perfil da juventude brasileira”, um amplo levantamento (quantitativo) de dados sobre os jovens de 15 a 24 anos do país.
Apesar da contribuição de várias e importantes pesquisas que vêm sendo produzidas e publicadas nos últimos anos no Brasil, ainda permanecem grandes áreas de desconhecimento e, principalmente, a necessidade de relacionar aspectos diferentes da realidade dos jovens com suas práticas, valores e opiniões. Por isso o conjunto dos colaboradores do Projeto Juventude entendeu a importância de investir esforços na realização deste levantamento, atualizando e ampliando a pesquisa pioneira sobre o tema que foi realizada pela Fundação Perseu Abramo em 1999. Buscou-se, assim, ofertar um conjunto de novas informações e conhecimentos estatisticamente representativos que contribuíssem para enriquecer diagnósticos e leituras que pudessem embasar melhor os debates que se processam sobre as políticas de juventude e sobre as abordagens que vêm sendo feitas por inúmeros interessados, notadamente estudiosos do tema – que poderiam se beneficiar dos seus resultados, aprofundando e ampliando as análises existentes.
A pesquisa que aqui se apresenta vem contribuir para preencher algumas dessas lacunas. Sua importância, em primeiro lugar, advém de sua amplitude, em vários sentidos: no tamanho da amostra (3.501 jovens investigados), nos âmbitos geográficos abarcados (urbano, rural, pequenas, médias e grandes cidades, na capital e no interior); na contemplação de diferentes variáveis (renda, gênero, idade, escolaridade, raça/etnia, religião, situação conjugal, situação no mercado de trabalho); no escopo dos temas investigados (160 questões, divididas em mais de dez temas: ser jovem, escola, trabalho, valores e referências, sexualidade, drogas, cultura e lazer, mídia, violência, política e participação, direitos); na possibilidade de abordar e relacionar dados sobre características demográficas, situações de vida e percepções, opiniões e valores dos jovens. Enfim, gerando resultados e interpretações extraídos do tratamento de uma grande diversidade de variáveis e de indicadores capazes de instigar os analistas a abordagens originais e/ou complementares que podem permitir avanços consideráveis no entendimento disponível sobre o tema.
Para explorar os dados levantados por essa pesquisa e produzir um conjunto de perspectivas sobre as várias dimensões que afetam a vida dos jovens, convidamos pesquisadores reconhecidos para analisar itens da pesquisa (entre os temas abordados nas perguntas, aspectos do perfil ou variáveis a partir das quais os dados foram tabulados). Cada autor selecionou, do conjunto das 600 tabelas produzidas, os dados que lhe interessava analisar, acessando, para tanto, os cruzamentos elaborados pela equipe da pesquisa, coordenada por Gustavo Venturi.
Alguns autores examinaram minuciosamente os dados recolhidos, outros fizeram uma leitura mais panorâmica, à luz de reflexões já desenvolvidas e dialogando com informações trazidas por outras pesquisas. Todos, evidentemente, desenvolveram as interpretações a partir das questões e dos argumentos de que já eram portadores, mas, no exame dos dados, puderam descobrir novos aspectos, confirmações ou negações, a respeito da realidade dos jovens brasileiros. E, mais importante, levantaram perguntas para orientar o debate e futuras investigações, como fazem notar Marilia Sposito e Regina Novaes – pesquisas quantitativas servem menos para provar realidades do que para levantar novas questões a serem investigadas.
Desse modo, para além de uma apresentação de tipo relatorial sobre os dados, temos, com o conjunto dos artigos e ensaios desta publicação, um belo acervo de reflexões, em cujo interior as interpretações dos dados contribuem para iluminar dimensões pouco exploradas anteriormente; reforçar teses já desenvolvidas e questionar outras; problematizar certos enunciados e repensar ou reequacionar determinadas conclusões correntes sobre o universo juvenil. Pode-se dizer que esse reforço em si já representa um importante avanço no conhecimento da juventude brasileira, ou das juventudes do país – na sua complexidade e diversidade –, para acentuar a ótica que informa todas as leituras aqui propostas. O livro oferece também uma contribuição ao debate político, pois os autores, aderindo à proposta do Projeto Juventude, dirigem suas interrogações e reflexões para pensar o papel que os jovens podem assumir na transformação da sociedade brasileira e apresentam questões, pistas e mesmo recomendações para a formulação de políticas para este segmento.
* * *
Na multiplicidade dos artigos e ensaios ora divulgados foram abordados vários ângulos, mas não todos os possíveis – de resto uma missão inatingível por uma única publicação. De fato, os dados revelados pela pesquisa permitiriam o tratamento de outras facetas igualmente de grande importância, mas a pretensão de exauri-las todas se chocaria com os propósitos dos organizadores que, numa expressão sintética, poderiam ser traduzidos pela ambição de bem demonstrar, por intermédio dos conteúdos deste livro, o enorme potencial a ser explorado pela disponibilização por parte do Instituto Cidadania da base de dados e indicadores que resultaram da realização do levantamento. Com essa postura, espera-se que temas como a violência, a mídia, as diferenças de classe social e de renda, entre outros não tratados neste momento, ainda virão a merecer a devida atenção dos especialistas e, certamente, resultarão em novas revelações analíticas que também se tornarão públicas. Ademais dessa ressalva, é importante assinalar que, no interior de cada tema ou variável, muitas informações foram examinadas, mas não todas, nem foram feitos todos os cruzamentos possíveis. Nunca se alimentou a pretensão de esgotar a análise e o debate, sequer nos próprios temas tratados neste livro: a única intenção era de que outras e novas análises pudessem ser desenvolvidas sobre os dados, razão pela qual eles estarão sempre disponíveis para os pesquisadores como um acervo público de franco acesso.
É curioso notar que algumas das questões (e as tabelas em que se encontram traduzidas) foram tomadas por quase todos os autores (como as que tratam dos significados de ser jovem, dos valores, dos assuntos que mais os interessam e mais os preocupam), indicando, talvez, sua densidade e original riqueza para sustentar distintas interpretações. É importante assinalar que, como demonstram Gustavo Venturi e Vilma Bokany, produzem-se interpretações variadas dos mesmos dados: veremos que em certos temas as leituras convergem e em outros se diferenciam até o ponto da oposição, o que, sem dúvida, contribui para o enriquecimento do debate.
Convictos da importância de apreender os sentidos da experiência histórica desta geração, os autores fazem vários tipos de alerta, principalmente na direção de tomar cuidado com óticas viciadas, com paradigmas que se naturalizam (Regina Novaes), com enunciados que se tornam pressupostos não contextualizados (Marilia Sposito), que podem distorcer a visão da complexidade e a singularidade que constituem a realidade dos jovens do Brasil de hoje.
Em primeiro lugar, torna-se fundamental localizar, como faz Paul Singer, a conjuntura histórica em que vive essa coorte de jovens: crise social, sob a cerrada vigência do neoliberalismo, com desmonte das políticas sociais, desemprego de longa duração, violência urbana, produzindo características singulares de postura ideológica, política e de engajamento pessoal (como também conclui Paulo Krischke).
Os temas do desemprego e da violência aparecem com eloqüência nos dados da pesquisa e são compreendidos como verdadeiros marcos por entre os quais se desenvolve a experiência desta geração. Disso decorrem muitas dificuldades, como a de projetar e se relacionar com o futuro pela efetiva possibilidade e medo de “sobrar”, como diz Regina Novaes, se não forem realizadas mudanças de curso na economia e na política, como demonstra Pedro Paulo Martoni Branco.
A importância do trabalho para os jovens é o tema de dois artigos: o de Pedro Paulo Martoni Branco e o de Nadya Guimarães. Ambos buscam compreender tanto as características do trabalho juvenil como os sentidos de que este se reveste para eles, concluindo que, em grande parte, é pela falta (ou a perspectiva de falta) que ele se impõe com tanta força na agenda.
Pedro Paulo faz uma densa análise das condições estruturais do mercado de trabalho e das demandas dos jovens ante o tema, cotejando os dados desta pesquisa com os de outras para refletir sobre o debate que se instaura sobre as políticas a adotar diante do “antagonismo” que emerge dessa situação. Incorporando muito do debate que se realizou no âmbito do Projeto Juventude, explora as possibilidades de respostas a serem dadas no campo das políticas públicas e ações sociais, relacionando trabalho, educação, cultura e engajamento social e político.
Nadya Guimarães se debruça sobre a pesquisa para esmiuçar os múltiplos significados que o trabalho tem para esta geração de jovens, dialogando com as teses da sociologia do trabalho e também com enunciados a respeito da juventude, fazendo muitas indagações que levam a repensar teorias e medidas políticas. A partir da constatação de que a juventude brasileira é uma juventude trabalhadora, busca explorar as implicações do “achado intrigante” de que o trabalho, apesar de “disforme”, como diz Claus Offe, permanece como referência central para os jovens, levantando questões para as teses que afirmam a perda de sentido do trabalho na nova configuração social.
Mas, apesar de todas as dificuldades, adversidades e temores, os jovens manifestam, de forma surpreendentemente semelhante, otimismo e satisfação com suas vidas e com o fato de serem jovens (LASSANCE, ABRAMO, SANTOS et alii). E também a convicção de que podem mudar o mundo, embora o alcance e o sentido desta convicção sejam interpretados de forma diferente por autores como Singer, Lassance e Krischke.
Outros alertas balizadores são o cuidado com as definições muito generalizantes e a necessidade de abordar a multiplicidade do perfil da juventude brasileira, considerando as diferenças e as desigualdades de condições (de posição na estrutura social, renda, gênero, etnia, meio em que vivem etc.), assim como as variedades de práticas e opiniões, a partir do que se estabelece a importância de falar em juventudes, no plural, e não no singular.
Mas vários autores ressaltam a existência de alguns elementos, atitudes e percepções similares, comuns a diferentes setores e situações sociais, que podem dar consistência ao termo “juventude” e aparecer como marcas geracionais, por meio do que se pode esboçar a singularidade da condição juvenil no Brasil de hoje. Este é um dos pontos de discussão de Helena Wendel Abramo, Marilia Sposito e Antonio Lassance. Helena e Marilia, cada uma à sua maneira, buscam verificar de que modo se pode falar na existência de uma condição juvenil na atualidade, dialogando com a produção teórica a esse respeito.
Helena Wendel Abramo explora os dados do perfil e as percepções acerca da condição juvenil, buscando verificar o que aparece como traços gerais e diferenciais entre diversas situações, principalmente as que se produzem sobre dois momentos distintos da etapa juvenil: a adolescência e a fase posterior aos 18 anos. Procura demonstrar a necessidade de assumir uma transformação no conteúdo e nas formas da condição juvenil, que não correspondem mais ao padrão estabelecido na experiência dos jovens de classe média de meados do século passado.
Marilia Sposito centra sua análise na relação entre juventude e escola (e subsidiariamente família e trabalho), situando suas interpretações no debate sobre a configuração de uma nova condição juvenil, quando os caminhos e os contornos para a entrada na vida adulta se diversificam, tornam-se mais complexos e menos lineares.
Os modos como os jovens vivem essa etapa da vida se alteram, vigorando uma confluência de vários processos de socialização na experiência juvenil, na qual nem a família, nem a escola têm mais o monopólio. Dialogando com teses que apostam na desinstitucionalização dos processos de vivência juvenil, afirma a importância de investir investigação e importância política nas agências escola e família, que continuam a ser espaços formativos importantes para os jovens, apesar de transformados.
Antonio Lassance constrói uma análise de dispersão para verificar a homogeneidade ou heterogeneidade dos dados (usando conceitos de amplitude e desvio-padrão) para ver em que os jovens se assemelham nacionalmente e em que são diferentes segundo as regiões do país. Sua indagação é sobre a possibilidade e a pertinência de falar em juventude brasileira, se há consistências nessa identidade. Conclui afirmativamente, verificando que há proximidades, regionalmente, no perfil demográfico e em aspectos cruciais da condição de jovens, em assuntos de preocupação e nas disposições relativas à política. Não que os jovens sejam iguais em todo o país, mas as diferenças existentes são de matizes; diferem, porém, em termos de expectativa. Apresenta uma interrogação sobre a validade de pensar em políticas nacionais e de que modo devem contemplar as diferenças territoriais, levantando a possibilidade de que, talvez, faça mais sentido pensar em diferenças entre cidades de grande e de pequeno porte do que em diferenças regionais.
Os campos que compõem a vida juvenil são múltiplos e complexos, como afirmam vários autores. Lazer, cultura e sexualidade estão entre eles.
Paulo Carrano, Juarez Dayrell e Ana Karina Brenner analisam, juntos, os temas do lazer, da cultura e da sociabilidade, afirmando a importância dessas dimensões para a vivência juvenil, não como tempo negativo tomado em contraposição a estudo e trabalho, mas como fundamentais para a elaboração de identidades pessoais e coletivas, para a formação de valores e referências, para o desenvolvimento da relação com o espaço público, para a atuação coletiva. Destrinchando com muita acuidade os dados da pesquisa, mostram como a diversidade da cultura brasileira e as bases econômicas sociais desiguais incidem sobre as possibilidades de acesso, experimentação e criação dos modos da cultura, do lazer e do tempo livre. Por isso a necessidade de incluir o tema na perspectiva do direito e insistir na importância de políticas públicas neste campo.
Gabriela Calazans examina minuciosamente as informações referentes a comportamento sexual e reprodutivo, juntamente com valores, interesses e preocupações dos jovens, indicando diferenças de gênero, idade e escolaridade muito relevantes. Levanta uma série de novas possibilidades de olhares sobre dados normalmente interpretados sob a ótica das conseqüências negativas das práticas sexuais dos jovens (que têm orientado diagnósticos e políticas na área) e perguntas que abrem novas trilhas interpretativas dos significados destas práticas. Por exemplo, ao constatar a baixa indicação da sexualidade como tema de interesse e preocupação entre os jovens entrevistados, aponta a possibilidade de que reflitam mais a preocupação dos adultos que o interesse dos próprios jovens.
Buscar compreender o sentido das experiências dos jovens no seu contexto histórico e cultural, evitando partir de expectativas fundadas sobre o comportamento “adulto” ou o de outras gerações, como se estes indicassem um padrão normal ou desejável, é um alerta compartilhado por Gabriela Calazans e Beatriz Carlini-Marlatt. Beatriz clama por uma outra chave de abordagem da questão das drogas, afirmando a necessidade de situar o tema no interior de uma análise do mercado e das políticas de drogas no país e no mundo, para lograr uma compreensão mais abrangente das práticas, das atitudes e dos riscos que os jovens desenvolvem na relação com essas substâncias. E, contra a corrente de boa parte do debate sobre o tema, alerta para a importância de não restringi-lo às drogas ilícitas que, apesar de se constatar um crescimento no índice de seu consumo entre jovens nos últimos anos – o que requer atenção –, não constitui o principal problema em termos de saúde pública do país, mas dedicar maior atenção ao álcool e ao tabaco, que têm, na verdade, produzido os maiores índices de problemas (inclusive fatais) entre os jovens brasileiros. Argumenta que estes são campos em que há ainda muito o que desenvolver em termos de política e legislação.
Explorar em que os jovens brasileiros diferem a partir de distintas variáveis e em que se assemelham é uma das chaves de análise, também, dos artigos de Maria José Carneiro, Gevanilda Santos et alii e Regina Novaes.
Maria José Carneiro afirma a importância de romper com a invisibilidade dos jovens rurais no país, incluindo-os no conjunto da juventude brasileira (permitindo comparar e verificar similitudes e diferenças neste conjunto), insistindo também na necessidade de focar a complexidade de suas vidas, para além do exame de sua posição no interior da categoria de trabalhador e na unidade familiar. Usando os dados da pesquisa juntamente com outras de sua própria autoria, examina a diversidade da situação dos jovens rurais, segundo múltiplas variáveis: região do país, tipo de produção agrícola, renda, gênero etc. Discute o sentido da escola e do trabalho, a relação com a família e o lazer e como se coloca a perspectiva de ficar no campo ou ir para a cidade, e ressalta também a “incrível” semelhança entre algumas das expressões dos jovens, apesar de todas as diferenças existentes.
Gevanilda Santos, Maria José Santos e Rosângela Borges assumem conjuntamente a tarefa de examinar o que é ser um jovem negro no contexto de uma sociedade globalizada e discriminatória. Reunindo numa mesma categoria os pretos e pardos (assumindo a perspectiva impulsionada pelo Movimento Negro Brasileiro), analisam como se situam os jovens negros nos dados relativos às situações de vida, às percepções sobre a própria juventude, às práticas e identidades culturais, à exposição à violência e a opiniões sobre o racismo e outros temas. E chamam a atenção para o fato de, ao lado das gritantes desigualdades raciais que marcam as condições de vida e o acesso a dimensões centrais da vida (como estudo, trabalho, lazer), haver similitudes ou pequenas diferenças, em termos de percepções, expectativas e valores relativos à própria condição juvenil.
Regina Novaes analisa a incidência das diferenças de religião nas práticas e opiniões dos jovens, na experiência histórica desta geração, marcada tanto pela secularização da sociedade, que suporia uma desafiliação religiosa, como pelo desemprego e violência, que produzem uma ambivalência em relação ao futuro e engendram novas necessidades e formas de vivências no campo da religiosidade. Argumenta que a conjuntura atual produz um campo religioso mais plural e competitivo, que envolve experimentação e circulação por diferentes religiões, produzindo a possibilidade de combinar elementos de diferentes espiritualidades em uma “síntese pessoal e intransferível”, assim como rearranjos provisórios entre crenças e ritos sem fidelidades institucionais. Analisa as diferenças de perfil dos jovens que professam as diferentes religiões; examina como as diferenças incidem nos valores, em algumas práticas e opiniões e em atitudes políticas; e conclui que a religião é elemento importante na composição da vida social contemporânea dos jovens, mas não no sentido unívoco (como fariam supor velhos esquemas interpretativos) de contracorrente da participação política e do ideário republicano.
Outra chave comum a muitos artigos é a interrogação sobre o papel que os jovens podem desempenhar na transformação de sua realidade e da sociedade, investigando seus valores, posições, disposições e práticas de participação. Vários autores questionam a afirmação corrente de alienação e conservadorismo acentuados entre os jovens desta geração, assim como de apatia ou falta de desejo ou empenho de participação.
Gustavo Venturi e Vilma Bokany tomam esta questão como mote de seu artigo para, na verdade, demonstrar a possibilidade de leituras diferentes dos dados, segundo a perspectiva com que se os interroga. Questionam as interpretações publicadas na imprensa quando da divulgação de seus resultados, apoiadas sobre sensos comuns a respeito de uma juventude alienada e conservadora: tais qualificativos se fazem em relação a quê? Quais são os termos de comparação? Selecionam algumas conclusões da mídia para mostrar erros ou vieses de leitura dos dados e apresentar alternativas de interpretações diferentes, usando para isso dados de outras pesquisas com a população em geral, desenvolvidas com a mesma metodologia que esta, pela mesma instituição à qual pertencem (Criterium em parceria com a Fundação Perseu Abramo). Concluem que o qualificativo “conservador” não se sustenta se a comparação se faz com outras categorias etárias ou com a população em geral; que a juventude, como conjunto, reflete tendências e escolhas da maioria da sociedade de que faz parte e, a rigor, segue emblematizando o seu “pólo” menos conservador.
Paulo Krischke faz um denso debate sobre a cultura política dos jovens, analisando os dados e as teorias relativas ao grau de adesão à democracia, por um lado, e à participação em modalidades convencionais e emergentes de atuação política, por outro. Recorre ao diálogo com outras pesquisas e interpretações teóricas desenvolvidas por ele e por outros, dentro e fora do Brasil, para interrogar as tendências no grau de adesão à democracia nesta geração, levantando questões sobre esquemas interpretativos que estabelecem relações diretas entre o crescimento desta adesão à democracia e os processos de modernização. Mas questiona também interpretações que apontam crescentes despolitização e desafiliação à democracia e à vida partidária entre os jovens, ressaltando o aumento de modalidades de participação não-convencional. Interroga até que ponto essas características se confirmarão como tendências de uma geração e indica rumos e metodologias para a continuidade da investigação.
A pergunta principal do artigo de Paul Singer também se refere à disposição de mudanças dos jovens brasileiros deste início de milênio e os sentidos que elas revelam. Sob o pano de fundo de análise do sentido da experiência de diferentes gerações juvenis, analisa dados da pesquisa relativos aos valores, desejos e disposição de envolvimento com certas modalidades de ação. Constata a importância da solidariedade como valor, da preferência pela ação direta como modo de ação, e um desejo de mudança, com uma aposta na capacidade de mobilização da sociedade civil; um revigoramento da democracia como valor (conforme Krischke). Mas não deixa de apontar a existência de um hiato entre a percepção da necessidade e do desejo de mudar o mundo e o engajamento real (ou disposição) para fazê-lo. Afirma que a crise social e a pobreza que atingem grande contingente dos jovens constrange essa disposição. E conclui pela necessidade de políticas que garantam as bases materiais mínimas de sobrevivência dos jovens, a fim de que possam contribuir para as mudanças desejadas.
Além desses autores, que centram suas análises sobre a cultura política e a participação dos jovens, vários outros incorporam este tema em suas análises, extraindo diferentes (e divergentes) conclusões. De qualquer modo, apesar de distintas interpretações, o que parece importante ser ressaltado é que não se pode generalizar nem atribuir como essência de uma geração ou de uma condição juvenil os atributos de conservadorismo e alienação ou os de rebeldia ou contestação. Aqui também é necessário, como apontam Gustavo Venturi e Vilma Bokany, fazer uma distinção entre os grupos mais mobilizados (ou a vanguarda), e o conjunto dos indivíduos, como ocorre em todas as gerações e segmentos sociais. Esta lembrança pode ser importante para ajudar a desmistificar imagens correntes sobre a juventude: não se apresentam nem como autores da dissolução do tecido social e da esfera política, nem como atores privilegiados de sua reconstrução e reorientação, mas sim como sujeitos fundamentais, com toda a complexidade de suas dificuldades e potencialidades, nos processos de conformação e transformação de suas vidas e da sociedade, junto (em paralelo, na confluência ou em conflito) com outros segmentos e atores sociais.
É justamente para aprofundar o conhecimento dos sentidos e da potencialidade desses múltiplos modos de atuação que se encontra em preparação o terceiro livro desta série que resulta do Projeto Juventude. A partir das narrativas das trajetórias de jovens ativistas (dos mais diversos tipos e de todos os estados do Brasil), colhidas por seus companheiros de geração, se pretende ampliar ainda mais esse retrato sobre a juventude do país, agora ressaltando o foco na participação. Em breve se disponibilizará mais uma publicação com os mesmos objetivos de contribuir para a ampliação do conhecimento, o enriquecimento do debate e a valorização das ações em favor dos jovens brasileiros.
Ao expressarmos a enorme satisfação por se tornarem públicos os resultados desse esforço de organização editorial, agradecemos a todos os autores, que de modo tão dedicado e generoso se dispuseram a examinar as informações com as lentes do seu conhecimento acumulado e as interrogações construídas por uma reflexão acurada e comprometida, pois sabemos que esta não é uma tarefa fácil, principalmente no prazo tão reduzido que propusemos. Agradecemos também, de modo especial, à equipe de execução da pesquisa – abrigada na Criterium – e notadamente ao seu coordenador, o sociólogo e cientista político Gustavo Venturi, a cuja laboriosa e constante dedicação se deve creditar a disponibilização dos dados que permitiram aos autores das análises e ensaios a sua elaboração; à equipe editorial pela enorme tolerância com os atrasos que, se não foram voluntários, infelizmente ocorreram, implicando rearranjos de rota e, apesar disso, pelo especial cuidado com que se dedicou ao preparo dos originais e, finalmente, a todos os jovens e seus aliados que participaram de forma engajada, contributiva e vibrante durante as várias etapas que foram cumpridas pelo Projeto Juventude.